segunda-feira, 3 de outubro de 2016

EU E MEU PAI SOMOS UM (João 10,30)




EU E MEU PAI SOMOS UM (João 10,30)
                          
                               Por Sâr Michael, Grão-Mestre da OM & S

Teodoro de Mopsuéstia dizia que em Jesus Cristo havia duas naturezas (humana e divina) e duas substâncias (hipóstase), no sentido de "essência" ou "pessoa", que co-existiam ao mesmo tempo. Isso era denominado de união hipostática, ou a convivência, em Cristo, de duas naturezas, a humana e a divina.

Na senda iniciática procuramos divinizar o humano e humanizar o divino.

Essas concepções profundas da natureza de Cristo nos levam a meditar sobre o papel e o significado da encarnação humana neste planeta.

Nós, como iniciados e eternos aprendizes buscamos não só inspiração nesses conceitos, mas também, uma regra de conduta que nos permita desenvolver em nós essa mesma união hipostárica.

Como podemos divinizar o humano para obtermos a Humanização do Divino?

Jean Baptiste Willermoz nos ensina sobre isso em sua obra “Tratado das Duas Naturezas Humana e Divina na Pessoa de Jesus Cristo”.

Em função disso, somos remetidos aos “dois” Cristos ou estados de Cristo, o ”Cristo Doloroso” e o “Cristo Glorioso”. Um representa o Jesus encarnado que sofreu as agruras e perseguições em sua vida material, até a crucificação no Cólgota, ocasião na qual, após ser crucificado, proclama, no momento de sua morte física, a célebre frase “Meu Pai, Meu Pai, porque me glorificaste?

Em seguida, vem a morte e a descida á mansão dos mortos por três dias, até a sua ressurreição gloriosa, e a consequente imortalidade.


Cristo Doloroso

Ao ressuscitar, Cristo estava coroado de Gloria e se manifestava com um aspecto luminoso, divino. Neste estado, sua união com o Pai se tornou eterna e indissolúvel.

Na iniciação, buscamos em vida conseguir essa União Hipostática com o Pai, separando o sutil do espesso e o fixo do volátil.
I
sso se faz, deliberada e conscientemente, atraindo a luz dos céus ou Fogo Celeste e captando o fogo elementar terrestre, amalgamando em nosso corpo as duas qualidades ígneas.


Cristo Glorioso

Como referência analógica de conexão, utilizamos a figura da Década Saída do Nada para fazer essa conexão.

Papus, em sua obra “Pater Noster Cabalistico” demonstra, como pela Oração que Cristo nos ensinou, essa união pode se processar.



“Pai Nosso que estáis no céus, santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso reino...
...
Porque Teu é o Reino, o Poder e a Glória, nos ciclos geradores.

Publicamos, nessa obra de Papus, uma prática de meditação ritualística ativa que desenvolve em nós essa União Hipostática, na medida em que atraímos, pela prática, para nosso corpo físico, o poder da Luz Divina do Pai, atraímos o Fogo Elemental do centro da Terra em nosso corpo e os amalgamamos em nosso ser, procurando Divinizar o Humano e Humanizar o Divino.

Os que sentirem o chamado, podem fazer a prática contida no livro, diariamente pois assim conhecerão o que os antigos gregos diziam: Iēsous Christos Theou Yios Sōtēr,: Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador.


                                            Iēsous Christos Theou Yios Sōtēr!!!!

terça-feira, 21 de junho de 2016

O JOVEM SOLDADO

                                 O Jovem Soldado

                                Papus




Em Chamont-Sur-Argonne, perto de Pierrefitte, dentro de uma trincheira, um jovem alemão estava morto segurando perto de sua cabeça e  à altura dos olhos seu livro de preces...

Pobre vítima da loucura dos grandes, eu te saúdo e uno minhas orações àquelas  que iluminaram teu Espírito no momento da partida. Sentido a morte vir, tu bravamente preparastes tua alma  para a separação física e, obscuro herói, fizeste apelo àquele que nos ouve a todos... Que teu gesto seja abençoado. Que importa que sejas um inimigo de minha pátria e um enviado desses orgulhosos que têm sacrificado a flor de seus  homens  à baixa satisfação de sua ambição.

Pequeno grão de areia nesse choque imenso, tu partiste, tu obedecestes, e tu vieste te fazer esmagar fisicamente em uma trincheira qualquer no meio dos campos  da França e perto dos bosques... Mas se teu corpo tem retornado a essa terra que o nutriu e o fez crescer, teu Espírito, sobre o qual nenhuma força material tem domínio, se liberou e se elevou glorioso, no plano do empírio...
No coração de Nosso Senhor, não mais  amigos, nem inimigos, quando a terrível morte tem passado, não há mais que espíritos que são sacrificados pelo Ideal, e que têm chegado ao termo brusco de sua rota terrestre...

E o perfume da prece tem santificado teus derradeiros instantes... e eu passei e senti teu Espírito calmo em sua evolução bem conquistada, e  quis, eu também, unir minhas orações às tuas....
Inimigos de ontem, saibamos    comungar hoje no Ideal superior  às humanas querelas.

Tu tens  uma família, pobre pequeno, uma mãe que vai chorar, irmãs que te sobreviverão e irmãos que talvez te imitarão.
E todos, em sua dor, vão também se prosternar e orar.... Vítima inocente das ambições cegas contra a evolução consciente e luminosa dos povos livres, fizeste teu dever, mas a mão implacável do Destino te marcou com  teu dedo e tua evolução se concluiu.
Amanhã, retornarás a terra, mas terás bebido o lethe.... vítima incógnita....... eu te saúdo e oro contigo.......

Tradução da pág. 178 do livro “ Papus, Lê Balzac de L´Occultisme” de Philippe Encausse.   

quinta-feira, 9 de junho de 2016

CADEIA INICIÁTICA DA OM & S




CADEIA INICIÁTICA  DA  OM & S

LOUIS CLAUDE DE SAINT-MARTIN

                                                                                                                                     Conde  de Chanteloup
                                      (CHAPTAL)
                                                                                                                                                
                             Não identificado

                                   Henri Delaage     
                                                        
                               Dr. Gerard Encausse
                                        ( PAPUS) 

                                    Charles Détré
                                           (Teder)

Georges Bogé de Lagréze
( Sâr MIKAEL)

 Auguste Reichel
( Sâr AMERTIS)


V. Churchill
( Sâr Vernita)


SÂR GULION
(Grão- Mestre, G.L. da INGLATERRA)






SÂR MICHAEL
(Grão- Mestre, G.L. do BRASIL)
  



sábado, 14 de maio de 2016

PROCESSO DE REGENERAÇÃO SEGUNDO SAINT-MARTIN

                       O  PROCESSO DE REGENERAÇÃO SEGUNDO SAINT-MARTIN
OU
A ALQUIMIA INTERIOR *

                                                                   Por Jean-Louis Ricard       


Os Três Tempos da Grande Obra

             Antes de se afastar da teurgia operativa de seu mestre Martinez de Pasqually, Saint-Martin praticou-a insistentemente até obter resultados convincentes.
  
         Robert Amadou não foi injusto ao afirmar que Saint-Martin teria conservado a teurgia mas interiorizando-a, “internalizando-a”(1).

          “Ao pregar e celebrar uma teurgia intracardíaca, não cerimonial”(2), o Filósofo Desconhecido sem dúvida transcendeu o Martinezismo abrindo uma via que Papus posteriormente chamou de Martinismo.

                O processo de regeneração do homem pode ser incluído nas quatro obras que são objeto de nosso estudo, e este processo é o mesmo do Hermetismo que Saint-Martin rejeitava tão explicitamente.

         O Filósofo Desconhecido abdicava de toda “operação” externa assim como de toda prática alquimica de laboratório, preteridas pelo oratório interno.

         Esta via da interioridade apoia-se entretanto sobre os mesmos princípios das quatro vias do Hermetismo, ou da Alquimia dita “externa”:

         “Purificai-vos,  pedi, recebei e agi. Toda a Obra esta nesses quatros tempos”(3).

Purificai-vos,  Ecce Homo

pedi,                O Homem de Desejo

recebei             O Novo Homem

e agi,                O Ministério do Homem-Espírito  

         Certamente, esta progressão em quatro tempos não prova por si mesma que Saint-Martin serviu-se de uma via alquimica, mas quando nos fixamos no estudos destas quatro obras, os elementos tornam-se claros.

         Assim, a primeira etapa em alquimia é chamada  Obra ao negro.


A obra ao negro

         Corresponde à “primeira coloração aparecida no Solve alquimico”(5).

         Esta primeira etapa possui vários nomes na Ciência Hermética: “calcinação”, “trevas”, “morte”, “putrefação”, “noite”.

         Saint-Martin consagrou Ecce Homo à expiação da falta original, e este estado de espírito engendra um processo de mortificação e de putrefação simbólicos. Certamente, esta expiação encontra-se nas três Obras principais, mas é nesta que a encontramos mais claramente definida.

         O sentimento de culpa primitiva deve prevalecer por toda reabilitação ulterior, tudo como nas operações dos Elus-Cohens onde as práticas são abertas pelas “preces de arrependimento e expiação”(6).

         De fato, o Cohen reconhece o crime do primeiro homem, Adão, e de sua posteridade.

         Saint-Martin, também, o anuncia muito claramente: “teus padecimentos interiores... eis a obra; eis o primeiro degrau da obra”(7).

         A expiação pelos “padecimentos interiores”, a mortificação, os choros chamados “lágrimas de miséria”, continuação da “degradação” devido ao crime primordial, “estado de enfermidade apático e tenebroso”, o horror no qual o homem decaído está situado; quantas vezes não temos distinguido nestas obras a palavra “crime”: “tu pagas, infeliz homem, as noites do crime com juros”(8).

         Saint-Martin revive este crime cósmico com uma tal intensidade que, ao interiorizá-lo, tem consciência de experimentar a própria agonia de Deus: “assim não deveríamos fugir da agonia interna, igualmente são as palavras de agonia, que semeiam e que engendrarão, porque elas somente são a expressão da vida e do amor”(9).

         Esta “santa ferida”, que deve se alargar, não prefigura a agonia romântica?

         Mas a mortificação em Saint-Martin somente é um estado passageiro, e uma etapa necessária, porque o homem, desde que se torna culpado, torna-se também capaz, e seu renascimento deve ser precedido por sua morte, segundo a ilustração da divisa alquimica da Fênix: Perit ut vivat.

         Se o desejo tem sido essencial ao renascimento, tem sido também essencial para a morte porque a “libertação começou desde o instante da punição”(11) e este desejo mortífero de aspiração para a morte é antes de tudo no autor um desejo de renascimento.

         Assim, a obra que simboliza mais precisamente a Segunda Etapa da Obra alquimica não é  O Homem de Desejo, mas O Novo Homem.
        

 A obra ao branco, ou o casamento alquimico

         O Dicionário Alquimico fornece poucos elementos concernentes à obra ao branco, “segunda cor da Obra, que corresponde ao segundo grau do fogo”.

         A “pedra dos filósofos”, após ter  passado pelo primeiro estágio de “putrefação”, embranquece e perde seus odores nauseantes.

         Esta Segunda Etapa, dita “estágio da Lua”(12), devido à sua brancura, é simbolicamente dedicada à “Ísis”(13), deusa lunar, e à prata.


         Mas esta segunda fase é sem dúvida uma das mais complexas, porque se o lado feminino e lunar prevalecem na primeira parte desta etapa, dita fase ao branco, a segunda parte é chamada “hermafrodita”(14), porque “o enxofre e o mercúrio dos filósofos”(15), chamados “rei” e “rainha”(16) equilibram-se e unem-se. Esta fase tão importante é a do reencontro, da união mística ou “núpcias alquimicas”(17).

         “O casamento indissolúvel”(18) que apregoa Saint-Martin, toma seu sentido verdadeiro nesta etapa da regeneração.

         Certamente, a descrição do processo é expresso por variantes devido às técnicas diferenciadas, figuradas pela via externa, ou a via interna.

         De fato, esta Segunda fase em Saint-Martin corresponde à comunicação com o Santo-anjo-guardião, que o autor nomeia “reconciliação”(19).

         De fato a “reconciliação” é o segundo ato do processo de regeneração cuja finalidade somente pode ser a “reintegração dos seres”; “o termo final, e a destinação do novo homem, não deveria prevalecer sobre os degraus obscuros e sofridos de sua reconciliação?”(20).

         Este casamento intimista do coração em Saint-Martin, não é mais que uma etapa da obra e não uma conclusão, “o termo final” está ainda por vir.

         Mas “a estrela dos magos”(21), que os alquimistas simbolizam pelo planeta Vênus e que se manifesta nesta fase, sobre a “pedra ao branco”(22), anuncia que a operação está em um bom caminho.

         “A estrela dos magos” é também chamada a estrela da esperança.

         Esta esperança Saint-Martin deixa pressentir porque, logo após “os degraus obscuros e sofridos da reconciliação”, branda “santificai-vos (disse Josué ao povo), porque o Senhor fará amanhã entre vós coisas maravilhosas”(23).

         Estas “coisas maravilhosas” são anunciadas pelo anjo guardião.

         O anjo guardião é chamado “o amigo” ou “o amigo fiel” pelo autor ao longo de sua obra; “é este amigo fiel que nos acompanha aqui embaixo em nossa miséria, como estivesse aprisionado conosco na região elementar”(24).

         É somente pelo “coração do homem”(25) que o anjo poderá entrar em contato com seu protegido.

         “O anjo é a sabedoria” de Deus, “o coração do homem é o amor”; “eles somente podem ser unidos no nome do Senhor que é, ao mesmo tempo, o amor e a sabedoria que os liga na sua unidade. Nenhum casamento é comparável a esse, e nenhum adultério é comparável ao que altera um semelhante casamento”(26).

         Semelhante àquela estrela que guia o peregrino com a qual “o artista se liga” (27), à aparição do “anjo terrestre”(28), unido em seu coração deve “preservar, dirigir e vigiar, ser o guardião e o mentor”(29) do artista, do homem de desejo.

         Esta presença instalada no homem de desejo deve portanto guiar, por esta aliança ou união sagrada, o eleito na direção do “ novo homem”(30), que toma assim o caminho da regeneração.

         É necessário ressaltar, que esta comunicação com o “Santo-anjo-guardião”, existia no sexto grau da Ordem Maçônica dos Elus-Cohens de vocação teúrgica, de Martinez de Pasqually: “nós te invocamos, oh Santo Anjo, para ser o guardião de (sobrenome e nome do impetrante)..., e responda sempre a seu apelo”(31).

         Esta aliança é selada por preces evocatórias, e uma unção sobre a cabeça do impetrante lembra a “primitiva aliança do homem com o eterno”(32), e sobretudo o caráter sacerdotal desta união.

         Esta segunda fase da obra interior ou alquimica é concluída com a etapa da união do “rei” e da “rainha”(33), ou do anjo que é espírito divino com o coração do homem de desejo, a terceira fase pode então ocorrer.

         E é ainda na obra O Novo Homem onde será descrita toda a progressão e  desenvolvimento da Obra ao vermelho.



 A Obra ao vermelho, ou o nascimento da criança-rei

         “Ao fim do magistério**, a pedra é vermelha e fixa e, como é perfeita, é chamada de Pedra-Filosofal”(34).

         Possuirá o dom de transmutar certos metais em ouro, mas servirá igualmente de medicamento para o corpo e a alma.

         Este estado eqüivale também para os alquimistas ao “nascimento da criança-rei”(35).

         Na Franco-Maçonaria, a pedra cúbica exposta no centro da Loja encontra-se ao lado do Sol, é chamada a pedra perfeita, do mesmo modo que a pedra filosofal (36).

         Saint-Martin fará uso igualmente do léxico maçônico para ilustrar um certo estado de consciência ou de iluminação interior: “esta pedra fundamental é realmente a raiz destas setes fontes sacramentais que o novo homem descobre nele, quando passa pelas provas indispensáveis, como é nesse lugar onde descobre este divino instrutor do qual falamos precedentemente”(37).

         As núpcias da etapa precedente, entre o Espírito de Deus e a alma do homem, semearão aquilo que será o novo homem; assim “a anunciação se faz em nós, e não tardamos a perceber que a concepção santa se fez desta maneira”, “devemos observar com atenção todos os movimentos que ocorrem em nós..., para não danificar o crescimento de nosso filho”(38).

         O hermafrodita da etapa precedente engendra seu próprio filho, até o nascimento da “criança-rei”, segundo a tradição alquimica que resgatou a tradição cristã do Cristo-Rei.

         “O nascimento” constitui a etapa suprema da Obra ao vermelho, “(por) este filho querido que acaba de receber o dia”(39).

         O nascimento do novo homem é um nascimento espiritual porque é engendrado pelo espírito, pois no Tratado da Reintegração dos Seres, Martinez de Pasqually estipula bem a diferença entre a posteridade de Caim e de Abel (40).

         De fato, segundo o Tratado, Caim teria saído de um coito carnal entre Adão e Eva, e sua posteridade portaria as características desta ignomínia lembrando o pecado original.

         Abel, seu irmão, seria igualmente filho de Adão, mas saído e concebido pelo espírito e não pela carne.

         O novo homem será portanto a geração espiritual de Abel, bendito por Deus, vindo resgatar e opor-se à posterioridade de Caim, saído do pecado e concebido pela carne e “o entusiasmo animal”(41). É por isto que Saint-Martin precisa, que “este homem novo, no lugar de ter nascido da dor, da justiça e da condenação, é nascido da consolidação do amor, da misericórdia e da graça, recebida de seu pai”(42).

         Competirá a nós ao curso de nossa tese, aprofundar estes elementos relativos ao Tratado de Martinez.

         O ponto essencial que ressalta Saint-Martin reside no fato de que a Obra ao vermelho não é concluída com o nascimento da criança-rei, porque esta deve agora crescer e vencer as etapas que a conduzirão à sua maturidade e sua liberdade em Deus.

         O mesmo ocorre na Alquimia, “a criança-rei” é alimentada do leite de sua “mãe provedora”(43), que é um composto ao negro e ao verde. É neste “composto” que se fortifica e se desenvolve a “criança-rei” ou “granulação”.

         Será somente mais tarde que a “criança-rei” será alimentada do “sangue”(45) da própria pedra ao vermelho.

         Este crescimento da criança nascida, na idade adulta, comportará três tempos.

         Os tempos de criança onde Saint-Martin prodigaliza toda a atenção a “este filho querido que é (ele) mesmo”(46), “este filho novo que (será) o objeto dos cuidados mais assíduos”(47); mas por sua vez o Filosofo Desconhecido tratará de ser, “o filho, o pai, e a mãe”(48), tanto quanto dure a etapa da infância, etapa de descoberta e de fragilidade. Assim, “desconfia-te portanto, homem, destas luzes precoces que te chegam sobre a natureza do ser que acaba de governar a tua ignorância”(49).

         A segunda etapa é caracterizada pela “aproximação do segundo ano”(50), e Saint-Martin compara o episódio de Jesus deixando seus pais se distanciarem quando da festa de Jerusalém, para ‘assombrar’ os doutores do templo que  “o escutarão em silêncio, e estes doutores seriam as dúvidas que a matéria e as trevas dos falsos educadores teriam exaltado em teu seio”(51).

         O novo homem se afirma, portanto, em sua segunda idade como um instrutor, mas não “abriu a entrada do reino divino, porque  (ele) está ainda em crescimento, e não atingiu a idade de sua virilidade”(52).

         No terceiro tempo, na idade de sua maturidade, o “novo homem” recebe o “batismo corporal”(53) da “mão de seu guia”, isto é de seu Anjo Guardião.

         Pela última vez, o novo homem  se submete ao seu “anjo” para receber “este batismo corporal regenerador”(54), que o permite aceder à “plenitude da divindade”(55).

          Última vez, porque o novo homem restabelecido e regenerado em seus direitos primitivos, será superior aos anjos por ter saído diretamente do quaternário que é Deus do qual ele é “a imagem e a semelhança”(56).

         “Esta entrada de Deus em nós”, manifesta-se “fisicamente” a partir do momento em que o novo homem pode “sentir que a divindade circula continuamente em torno dele, para encontrar um sentido por onde possa se introduzir até seu coração”(57).

         Esta sensação da Presença de Deus é semelhante a circulação do fogo, que “o batismo corporal do anjo” teria ateado.

         Este fogo interior reanimará os “setes canais espirituais que aguardam toda a ordenação sacramental, para reencaminhar os órgãos da fonte suprema”(58).

         “Os setes canais”, mencionados por Saint-Martin, representam os sete “centros espirituais” que os Elus-Cohens devem tornar a despertar ao curso de suas cerimônias teúrgicas, exatamente como estipulam as instruções Cohen: “os trabalhos que seguimos, não possuem outro objetivo; nas sete classes, ou nos sete graus devem ser abertos cada um dos sete selos, ou portas da inteligência”(59).

         Precisamos que, no sistema Cohen de Martinez, a última classe correspondia ao título supremo de Réau-Croix.

         Este último grau, que Martinez não conferiu mais que a um pequeno número, significa que o Eleito estaria pronto para ser reintegrado aos seus direitos divinos primitivos.

         Ora, o novo homem ou homem regenerado de Saint-Martin, corresponde estranhamente ao Rosa-Cruz de Martinez de Pasqually.

         Certamente, a missão do novo homem não está acabada, porque deverá ainda passar pelas mesmas provas que o próprio Cristo passou, para poder encetar seu ministério que é o do homem-espírito. 
  
O Quarto tempo
O Ministério do homem-espírito, ou a realização da obra
        
          Se a manifestação de Deus é “trina”, segundo uma expressão cara a Martinez, seu espírito desperta do “quaternário”.

         Assim, as três primeiras etapas da Grande-Obra Alquimica simbolizam a manifestação de Deus, mas a quarta revela o ministério do homem-espírito acima de todas as suas formas e aparências.

         O mesmo ocorre para o alquimista, “a verdadeira viagem começa quando ‘o adepto’ alcança a obra ao vermelho”(60), a Pedra Filosofal.

         Assim a filosofia alquimica deve utilizar a pedra para curar as mazelas da humanidade, porque “ela cura todas as doenças como a hidropisia, paralisia, apoplexia, a lepra, abrevia todas (as doenças) em geral”(61).

         O novo homem recebe portanto um ministério divino e torna-se um tipo de funcionário “da administração da coisa divina”(62).

         De fato o novo homem torna-se um mestre da natureza, mestre em ciência e sabedoria para seus semelhantes, e por sua vez mestre e servidor da palavra.

         Servidor, porque foi regenerado por esta palavra divina  que continua a receber e mestre porque a seu turno pode pronunciar o verbo da própria divindade.

         A regeneração do novo homem é feita pela palavra: “Sim, Senhor, é pronunciando Teu nome sobre o homem de desejo que Tu renovas todo seu ser, e é pronunciando Teu nome sobre ele que nos tornamos de novo vossa imagem, vossa semelhança”(63).

         O “novo homem” somente poderá cumprir seu ministério na idade da maturidade, porque a “criança” é aquela que não fala.

        A criança para Saint-Martin “somente é afetada de princípio pelos sentidos mais grosseiros”, e o uso da palavra somente lhe é atribuída no final.

        A comparação com a Franco-Maçonaria é evidente, porque o aprendiz de idade simbólica de “três anos” não possui o direito à palavra.

       Pelo contrário, a classe secreta da Franco-Maçonaria do Regime Escocês Retificado, se divide em dois grandes finais: “Professo e Grande-Professo”.

       Ora, o Professo como todo professor é o que anuncia pela voz.

       O Grande-Professo pode igualmente, na perspectiva martinista, ser o novo homem, o homem regenerado pela palavra, e que pode desde então cumprir seu ministério.

       O juramento maçônico faz parte integrante deste aprendizado do fenômeno sagrado que representa a palavra. Tudo que pode ser dito em Loja deve ser anunciado “fortemente e francamente”(64).

       Pelo contrário, todo maçom provido ao grau de Cavaleiro Benfeitor da Cidade Santa, estaria “desobrigado de seus juramentos maçônicos”(65).

       Concluímos que todo C.B.C.S. cooptado na classe secreta deveria ser isento de todo juramento, assim como entrave da palavra, porque é a palavra mesma que deve regenerar o Professo, e é também a palavra que deve ser o instrumento de seu ministério.

        O ministério do homem-espírito é de “instruir” seu semelhante e seu irmão, o “homem de desejo”(64).

        O novo homem “ainda que saia do mundo em espírito, ocupa-se com os seus que estão ainda no mundo, até que a Obra esteja inteiramente cumprida neles”(67).

        O ministério do homem-espírito é um ministério de “caridade espiritual”, porque o homem regenerado deve tender a exercer seu sacerdócio, para o bem do outro no que concerne a obra caritativa, e pela instrução da palavra para o que concerne ao espírito.

        Assim, para exercer e defender este ministério, o novo homem deve se incluir em seu mundo para professar.

“ Purificai-vos,                      
   pedi         ,
   recebei
   e agi, toda a obra está nesses quatros tempos”
        
        A Grande Obra falada por Saint-Martin, notadamente na introdução do Tableau Naturel ( Quadro Natural), nada mais é que a Grande Obra Hermética. E, mesmo que o Filosofo Desconhecido se preserve de estabelecer ligações com a Ciência dos alquimistas que julga “muito material”, todos os princípios reais desta Ciência bem existem em suas obras.

       Além disso, sua grande originalidade consiste na organização de um verdadeiro paralelo entre a Ciência Teúrgica de Martinez, e a Ciência Alquimica dita Hermética.

       A segunda etapa desta originalidade ergue-se da interioridade no qual estas duas ciências se fazem uma única, operando.

       Robert Amadou fala da “internalização” da Teurgia  martinezista por Saint-Martin e podemos facilmente acrescentar que o Filósofo Desconhecido internaliza as diferentes etapas do processo alquimico conduzindo à Grande Obra.

       Teurgia e Alquimia não são mais ciências distintas, mas uma só e única ciência cujo gênio do autor soube romper os segredos, encontrados nos Arcano-Arcanorum (68).



Notas:

* Traduzido pela OMS da revista “L’Esprit des choses”, No 24, 1999, CIREM.
** A palavra magistére em francês possui dois significados compatíveis com o texto: 1) o de Mestrado 2) magistério, que na química antiga era um pó mineral muito fino, a que se atribuíam propriedades maravilhosas. ( N. do T.)
        
1.      Prefácio do "Homem de Desejo", p. 10.
2.      Papus: "Louis Claude de Saint-Martin", Paris, Demeter, 1998.
3.      HD, p.35.
4.      As quatros obras são: Ecce Homo, O Homem de Desejo (HD), O Novo Homem (NH), O Ministério do Homem-Espírito (MHE). A idéia de realizar uma pesquisa sobre a regeneração em SM nas quatros obras mencionadas, foi sem dúvida inspirada por um texto de Robert Amadou no qual cita o senhor Octave BELIARD, “eminente pesquisador” do espírito martinista. Beliard tem de fato “observado que podemos definir o percurso filosófico, o caminho da reintegração segundo SM, com a ajuda dos títulos de suas quatros obras que incluem a palavra homem.  Em: Le Monde Inconnu, no. 3, fevereiro 1980; entrevista do mês: Robert Amadou por Roger RAZIEL, p. 32, Paris.
5.      "Dictionaire Alchimique".
6.      HD, p. 10 – prefácio de Robert Amadou.
7.      Idem, p. 29.
8.      Ecce Homo.
9.      HD, p 237.
10.  O MHE, p.283.
11.  O NH, p. 8.
12.  "Dictionaire Philosophique".
13.  Idem.
14.  Id.
15.  Id.
16.  Id.
17.  "Les Noces Alchimiques de Christian Rosencreuz".
18.  Citação de SM, publicado por Robert Amadou–Document martiniste 33 – Paris Cariscript, p.25 –  “Sedir levez-vous”.
19.  O NH, p. 154.
20.  Idem, p. 171.
21.  "Le Dictionaire Alchimique".
22.  Idem.
23.  O NH, p. 171.
24.  Idem, p. 7.
25.  Id., p. 8 .
26.  Id., p. 8.
27.  Definição do "Dictionaire Alchimique", concernente aquele que trabalha na Grande Obra.
28.  HD, p. 72.
29.  Idem, p. 72
30.  O NH, p. 189.
31.  Ritual do Grau de Mestre Elus-Cohen – Arquivos Privados, extraído do manuscrito de Alger, que será brevemente publicado pelo L’Esprit des Choses – CIREM, BP 8, 58130 – GUERIGNY.
32.  Idem.
33.  "Les Noces Chymiques de Christian Rosencreuz".
34.  "Dictionaire Alchimique".
35.  Idem.
36.  Arquivos Privados.
37.  NH, p. 211.
38.  NH, p. 27.
39.  Idem, p. 43.
40.  Traité, p. 75 (Tratado da Reintegração dos Seres...).
41.  Idem.
42.  NH, p. 186.
43.  "Dictionaire de Philosophie  Alchimique": verbete mére nourrice.
44.  Termo alquímico; em latim compositus significa colocar junto, mesma raiz de compost (francês).
45.  "Le Grand-Ouvre" por Roger Caro, Arquivos Privados.
46.  NH, p. 73.
47.  Idem, p. 44.
48.  Idem.
49.  Id., p. 42.
50.  Id, p. 72.
51.  Id,
52.  Id, p. 126.
53.  Id, p. 136.
54.  Id,
55.  Id, p. 137.
56.  Id, p. 244.
57.  Id, p. 138.
58.  Id, p. 140.
59.  "Presença de Louis- Claude de Saint-Martin", p. 70.
60.  Arquivos Maçônicos Privados, comentários relativos a Grande Obra alquímica, de Gérard Kloppel, antigo responsável pela franco-maçonaria de Memphis-Mizraïm.
61.  Basile Valentin – Révélation, op. Cit., p. 34.
62.  MHE, p. 39.
63.  NH, p. 261.
64.  Esta divisa maçônica provém de uma herança da “Estrita Observância Templária”, Rito sobre o qual foi enxertado o RER quando de sua criação (Arquivos Privados).
65.   Arquivos Privados.
66.  MHE, P. 46.
67.  NH, p. 301.
68.  Arcano-Arcanorum, publicado e comentado por Denis Labouré e Remi Boyer, CIREM, 1999. 


Bibliografia citada disponível em português e espanhol :

Pasqually : Tratado da Reintegração dos Seres Criados, edições 70, Lisboa, 1979.

Saint-Martin : - O Homem de Desejo, SCA/Martins Fontes, SP, 1986.
                       - El Hombre Nuevo, Luis Cárcamo editor, Madri, 1993 (há uma edição em português
                         disponível no site da Sociedade das Ciências Antigas – SCA).
                       - O Homem Novo, AMORC, Curitiba, 2000.
                       - O Ministério do Homem-Espírito, AMORC, Curitiba, 1997.
                       - Ecce Homo, disponível no site da Sociedade das Ciências Antigas – SCA.
                       - Dos Erros e da Verdade, AMORC, Curitiba, 1994.
                       - El Crocodilo, em espanhol, não temos referências.


BIBLIOGRAFIA

 Os livros


ENCAUSSE, Gérard (PAPUS), Louis‑Claude de Saint‑Martin ‑ Edition Denieter ‑Paris 1988.

PASQUALLY, Martinez de, Traité de la réintégration des êtres, dans leur première propriété, vertu et puissance spirituelle divine ‑ Editions traditionnelles ‑ Paris Vènie ‑1 ‑ 235 pages.


SAINT‑MARTIN, Louis‑Claude de,

Le Crocodile, ou la guerre du bien et du mal, arrivée sous le règue de Louis XV, poème épico-magique en 102 chants, Triades Editions Paris 1979 ‑ 252 pages.

Des erreurs et de la vérité ‑ Bibliothèque Générale des écrits de Saint-Martin N' 10 (Fac‑similé) ‑ oeuvres majeures ‑ Tome 1, Hildesheim,1975.

De l'esprit des choses ‑ Bibl. Gén. des écrits de Louis‑Claude Saint-Martin N'247 (Fac‑similé) ‑ oeuvres majeures ‑ 310 pages.

Ecce homo. suivi du Cimetière d'Amboise ‑ Editions Rosacruciennes, Villeneuve-Saint-Georges,1989 ‑ 108 pages.

Le ministère de l'homme‑esprit ‑ Editions Rosicrusiennes ‑ 1989 ‑ Villeneuve­Saint‑Georges –

 400 pages.

Le nouvel homme ‑ Editions Rosicruslennes ‑ 1989 ‑ Villeneuve‑Saint‑Georges ‑336 pages.

L'homme de désir ‑ Edition du Rocher ‑ Paris 1979 ‑ 325 pages.

Mon portrait historique et philosophique ‑ Edition R. Julliard ‑ Paris ‑ 1961.

Oeuvres posthumes (fac‑similé) Tome 1 ‑Edition Georg Olms ‑ Hildesheim RFA ‑ 1980 ‑ 250 pages.

Tableau Naturel qui existe entre Dieu, l'Homme et l'Univers – Robert Dumas ‑ Collection Esoterica ‑ 334 pages.

Presence de Louis‑Claude de Saint‑Martin ‑ Textes inédits ‑ suivis des actes du Colloque sur Louis Claude du Saint‑Martin tenus à l'université de Tours, Editions l’autre rive, Société Ligérienne de Philosophie ‑ Tours 1986, 319 pages.

Instructions sur la Sagesse & suite d'instructions sur un autre plan publiées par Robert Amadou ‑ pages 7 à 154.

Saint-Martin, fou à délier par Robert Amadou ‑ pages 155 à 230.

L’Homme de désir : un malaise sémiologique? par Romano Baldi ‑ pages 231 à 242.

Louis-Claude de Saint‑Martin et l'origine des langues par Yvon Delaval ‑ pages 243 à 256.

Differences et  générations autour de la notion de rapport dans l'oeuvre de Louis‑Claude de Saint‑Martin par N.J. Chaquin ‑ pages 257 à 270.
               
Germe, racine et puissance chez Louis‑Claude de Saint‑Martin par J.F. Marquet – pages 271 à 290.

Le regard sur Louis‑Claude de Saint‑Martin et L'Histoire par Jean Roussel ‑ pages 291 à 305.


Saint-Martin en Allemagne par J.L. Vieillard ‑ Baron ‑ pages 307 à 315.

VALENTIN Révélation des mvstères des teintures des sept métaux ‑ texte de 1646 –ONNIUM – Editions littéraires ‑ Paris ‑ 1976 ‑ 100 pages.

 Brochuras e artigos

Bilan des recherches sur Louis‑Claude de Saint‑Martin par J. Bellemin Noël ‑ page 447­- 452 – Revue d'histoire littéraire de la France Juillet/Septernbre 1963

Dictionnaire de philosophie alchimique par Kamala‑JNANA ‑ Edition Georges CHARLET (Haute‑Savoie)

Document martiniste 33, article Sédir, levez‑vous, publié par Robert Amadou ‑Cariscript Paris

Le monde inconnu ‑ revue N'3, article interview du mois, Robert Amadou par Roger Raziel ‑ Février 1980 ‑ Paris


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